quarta-feira, 1 de julho de 2015

ARTE EGÍPCIA : ESCULTURAS , PINTURAS , JOALHERIAS - Jarbas Vilela



A  escultura e a pintura  estiveram submetidas aos mesmos princípios que governaram a arquitetura.
E isso funcionou assim :



"O verdadeiro vidro ainda não era conhecido no Período Pré-Dinástico, mas a louça envernizada da I Dinastia é igual a qualquer outra dos tempos posteriores.
 
Na época de  TJA-ATI  ( I Dinastia ) apareceu um artista que desenhou a figura de um falcão e o hieróglifo como ele o fixou percorreu, como padrão, toda a história egípcia.
 
No reinado de  SMERKHAT  NEKHTI  encontramos, pela primeira vez, os animais bem desenhados, segundo a moda egípcia.
 
A III Dinastia inventa o torno do oleiro e o  verniz para a cerâmica.
 
Sob a  V Dinastia a arte alcança seu primeiro apogeu  -  a representação convencional de um rei já se acha fixada "
H.R. HALL  -  "The Ancient History of the Near East" ).








De onde os egípcios obtinham
os materiais para trabalhar ?




"Importava-se da Mesopotâmia  o lápis-lazúli ;
no Sinai  extraíam as turquesas e o cobre.

O granito negro e vermelho vinha de Assuã  -  o chamado  'país dos elefantes', que lhes dava também o precioso marfim.

O arenito, utilizado desde o Médio Império, se obtinha na zona situada entre o Alto Egito e a Núbia ;

O calcário, que aparece como rocha característica desde Edfú até o Delta, tinha nos arredores de Mênfis uma espécie de grão fino e brilhante, com o qual foram erguidas as famosas  'muralhas brancas'  da cidade.

A preciosa  'pedra do milagre',  assim chamada,  era a duríssima  grés, de um colorido entre o roxo e o amarelo pardo   -  extraía-se da  'montanha roxa', nas proximidades de Mênfis.

As montanhas arábicas deram-lhes o alabastro e um gesso muito fino e translúcido que os gregos chamavam  "alabastron".

No  Wadi Hammamat  se obtinha o pórfiro, o cristal de rocha, a cornalina vermelha, a ametista violeta, a calcedônia e os basaltos verde e negro, usados sobretudo no período final.

A Núbia ofereceu o ouro à intensa exploração e o ébano.

O  Punt forneceu o incenso, a mirra e as plumagens da avestruz, para os leques e flabelos.

O estanho, para o fabrico do bronze, veio de países da orla mediterrânea.

O ferro, 'mineral do céu',  veio do  Hatti  -  país dos hititas, como atestam os presentes enviados ao Egito "
JOSEPH WIESNER  -  "El Arte Egipcio" ).


E diga-se de passagem que os punhais desse metal, encontrados no túmulo de  TUTANKHAMEN, apresentam apenas alguns pontos de ferrugem.











Com a  V Dinastia as convenções da arte fixaram-se permanentemente através de um  "cânone"  nobre, cheio de estética, duração e permanência.

As estátuas   de outrora deveriam ser vistas plenamente de frente, ou de perfil, fazendo parte do conjunto arquitetônico  -  apareciam no lugar determinado pela composição do arquiteto.







Estes príncipes eram da família real fundadora do Antigo Império.
Os operários das escavações fugiram assustados ao verem brilhar na escuridão da mástaba, em Meidum, os olhos das estátuas, como espíritos guardiães.
A fixadez do olhar é impressionante. Jamais se cruzam com as do observador, sob qualquer ângulo.
Eles contemplam a eternidade !


Conjunto estatuário de  RÁ-HOTEP, filho de  SNEFRU  e 'general dos arqueiros do rei', e sua esposa
'a senhora  NOFRET'.
IV  Dinastia  -




Exemplo disso são
as estátuas dos nichos das mástabas de  PTAH-IRY-KÁ ,  TI  e  MERERUKA, 
os conjuntos estatuários de  MENKAURA,  de  RÁ-HOTEP e NOFRET  e 
as estátuas isoladas de  KAFRÁ,  TJESER  e  escribas.


O cubismo da estatuária produziu aquelas formas planas, quadradas, estáticas, compactas que cobrem, decorativamente, as paredes das tumbas e templos.


Cada figura assume uma posição de eternidade, evitando aparências de flexibilidade, ação momentânea ou passageira  :  são de aspecto maciço, imóvel, libertadas no espaço e no tempo.


São a representação de uma vida eterna.




As paredes    eram afrescadas com cores vivas, niveladas antes com uma camada de argila preta e palha triturada.

Passava-se uma demão de gesso amalgamado com clara de ovo sobre o qual reproduziam o desenho, quadriculando a  parede e o esboço.

Intervinham-se os retoques, depois do que aplicavam-se as cores, procurando aproximar-se dos tons naturais, mesmo sem imitá-lo fielmente, pois visavam substituir a realidade visível por uma representação ideal ou realidade convencional.

Assim, temos um radioso domínio da carne pelo espírito, que faz do Egito a terra clássica.







Nas pinturas  , meninos, criados e pessoas de classes inferiores podiam ser representadas brincando, em animação e atividade.

Mas o  "senhor"  tinha que ser desenhado obedecendo essas regras convencionadas.

 As estátuas e relevos da  IV Dinastia e mesmo da V, manifestaram a tão desejada  expressão de autoridade, dignidade e vida eterna  melhor que as de qualquer outra espécie da história egípcia.

Pode-se dizer que foram as obras mais egípcias e mais sofisticadas.




Em 1896,  QUIMBELL  descobriu duas estátuas, provavelmente de  MERERUKA  MEHTINSAF  e seu filho, todas em placas de bronze, unidas entre si com cravos do mesmo material. 
Numa recente publicação ( 1965 ) de  CYRIL  ALDRED  elas são indicadas como pertencentes a  PEPI I  e seu filho  MERNERE, confirmadas também por  JOSEPH  WIERNER.




Cânones da
Representação  Hieroglífica



Com raríssimas exceções a figuração de perfil era tomada por preferência, pois permitia representar as diferentes partes do corpo humano sobre seus aspectos mais completos e característicos.

De perfil, obtém-se um detalhe mais exato e completo dos contornos exteriores da ossatura e volume da cabeça.

Essa representação é uma construção mental :  trata separadamente, mas com regras, cada uma das partes.

A orelha e os olhos aparecem inteiros, de frente, completos, figurando no interior da silhueta craniana.

As  espáduas são representadas de frente, indicando o segundo plano do quadro às que assim não aparecem.

A bacia é vista de 3/4, como transição entre as espáduas e as pernas, de perfil.

"As mãos sempre de palmo e os polegares ocupam a mesma posição em ambas.

Nos pés silhuados, só vemos o dedo maior, por ser o mais destacado da silhueta e o apoio do corpo.  Fora disto são distribuídos como os polegares e se acham dispostos sobre o interior dos pés.
 
As regras de perspectiva, de certa forma, modificam as dimensões e os valores, apresentando deformações e alterações de coloridos.
 
Os egípcios fugiam a isto, representando os objetos tais como não na realidade e sobre um só plano "
CRISTIANE  NOBLECOURT  -  " L'Art Egyptienne").












O mobiliário    de quarto de  HETEPHERES  ( III Dinastia ), de finíssimo acabamento, executado em ébano e recoberto com lâminas de ouro, transmitem um gosto altamente luxuoso, pela mestria do desenho e proporções.
Uma finíssima cortina deveria cobrir o dossel portátil, protegendo a rainha das picadas dos mosquitos.
Embora traga o nome e títulos de seu marido,  SNEFRU, diz-se pertencer à mulher.







Móveis requintados só encontraremos 1.290 anos mais tarde, com TUTANKHAMEN.


Leito hathórico de TUTANKHAMEN.


Banqueta de TUTANKHAMEN :
as pernas representam cabeças de gansos












As cenas hieroglíficas acentuam
os serviços com as colheitas abundantes,
as riquezas naturais,
os prazeres,
as caçadas,
as festas  e
os jogos.





Sob a  XII dinastia, os egípcios  "foram japoneses no seu sentimento de oportunidade e delicadeza  e  gregos no seu senso de equilíbrio e proporção"  ( H.R.HALL ).

Nessa ocasião, o artista alcançou, em breve espaço de tempo, um grande naturalismo que só se manifestaria extraordinariamente sob  AKHENÁTEN.
Os  marfins,
os escaravelhos e
os trabalhos de   ourivesaria  são extraordinários.
Nada se fez em épocas posteriores, com exceção da joalheria de TUTANKHAMEN, que se compare aos peitorais de ouro e outros objetos incrustados do tempo de  SENUSERT III.







O povo tornava a existência alegre e confiante sob o cuidado dos deuses e, em especial, do deus-rei.







As cenas que representam o cotidiano geralmente são acompanhadas de breves sentenças descrevendo-as e reproduzindo as palavras dos lavradores e servos :

'Este vaso é muito formoso' ,  diz presunçosamente um artesão ao aplicar a última pincelada de esmalte em sua obra.
'Oh! Guarde-o então' ,  contesta ironicamente seu companheiro.

'Dia maravilhoso ! O ar está fresco, os bois trabalham e o céu está azul ; trabalhamos para o rei !'

'Batei, batei a palha ; tirai dela o alimento e o pão para o vosso senhor'.



Numa cena de pesca, com maça, um servo meio despeitado pela agilidade do seu companheiro, diz-lhe o seguinte :
'Não é você quem vai me ensinar o que eu sei fazer melhor do que você !'


Outro afresco do túmulo de  TI, em Sakkara, mostra um pastor ajudando no parto de uma vaca, sob o comando de um guarda :
'Pastor, ajude-a a parir !'


Três servos, em um bote de papiro, acompanham a atravessia do rebanho pelo rio.  Quando um deles nota que estão sendo observados pelos malignos crocodilos, começa a gritar e a gesticular-se para que o rebanho ande mais depressa.
Outro pastor que o observa da outra margem, grita-lhe :
'Não arme tanto alvoroço !'


Em contraste com esses cuidados, vemos um homem roubando leite, escondido entre as vacas. Nervosamente diz a um companheiro :
'Traga logo o cântaro e ajude-me a ordenhar, antes que chegue o pastor !'








Conjunto colossal de AMENÓFIS III  e  TIY



Estela  de  AKHENÁTEN e NEFERTITE



 Em grupos estatuários do Novo Império, algumas rainhas,  como  TIY  e  NEFERTITE   , aparecem  com o mesmo tamanho, sentadas ao lado do marido, em vez de humildemente acocoradas em suas pernas :  as rainhas, suas esposas, eram mães de deuses, não eram ? ...  portanto, deusas também.

Eis alguns de seus títulos :
'A esposa do rei' ;
'A mãe do deus' ;
'A mulher do grande rei, por ele amada' ;
'A Senhora dos Dois Países' ....








A arte de  AKHETÁTEN    ( atual Tel-el-Amarna ), um capítulo respeitável e reservado da História, variava acentuadamente do grotesco ao acentuadamente convencional, mas não era aquele naturalismo das mais antigas manifestações artísticas.

A eternidade não recebia tanta importância na arte amarniense, como as aventuras diárias e o intenso amor à natureza chegou a deformações e caricaturas.

Só mesmo na arte amarniense podemos admirar
um vizir correndo à pé ao lado do carro real,
um faraó com a barba crescida e
um gostoso beijo do amoroso par real.

Os artistas fizeram novos ensaios, libertando-se das antigas restrições e os afrescos ganharam uma excessiva flexibilidade.

Um ponto escuro, sob o nariz, salientou as narinas e uma linha negra desenhou-o no resto da silhueta.

Pela primeira vez os pés e as mãos são desenhados corretamente.

Foram tão profundas as raízes do naturalismo que, ao encerrar-se bruscamente essa época, a arte anterior nunca mais voltou a recobrar sua harmonia, dignidade e equilíbrio.









A arte posterior   a Amarna prendeu-se tenuamente aos estímulos imperialistas.

As formas hieráticas foram abandonadas, em favor da vivacidade pitoresca.  A atualidade adquiria maior importância do que uma visão do  "más allá".

As tumbas da  XIX e XX Dinastias revelam mais interesse pela exuberância, movimento e detalhes  característicos da vida egípcia.




Uma goma de certa variedade da acácia, diluída em água, passou a ser usada como  verniz para as gravuras ...  mas foi logo abolida, sem bons resultados.




Grande parte das obras pictóricas do  Novo Império estão nas tumbas dos notáveis tebanos em  Gurnah e  Deir-el-Medineh  ( necrópole de artesãos e construtores próxima às imensas "residências funerárias" do Vale dos Reis ).

Quando o vazio espiritual dos últimos tempos produziu uma forte reação arcaica, os desenhistas buscaram inspiração no  Antigo e Médio Impérios, onde o "espírito" se mostrára mais vigoroso e nacional.

As paredes dos túmulos reproduzem os mesmos painéis das mástabas e textos fiéis aos das tumbas reais de  1.700 anos antes.

Um certo  IBI  ( 'Intendente da Esposa Divina  NITOKRIS'  ) da  XXVI Dinastia, por exemplo, descobriu que seu nome e alguns de seus títulos eram os mesmos de um importante funcionário da VI  Dinastia, enterrado em  Deir-el-Gbrawi   (320 km. ao norte de Tebas ).
Então, enviou à essa tumba desenhistas para que copiassem suas cenas e inscrições, reproduzindo-as em sua própria tumba, em Tebas.

Outro exemplo dessa busca aos modelos antigos, vemos em  PBES, no reinado de  PSAMÉTICO I, que decorou sua tumba com relevos vinculados à  XVIII Dinastia, cuja arte remontava à das pirâmides.
Não é uma cópia fiel, neste caso, mas uma adaptação da antiga temática.

Tumbas e sarcófagos da  XXVI Dinastia quase sempre trazem textos pertencentes às pirâmides da  V e  VI  Dinastias.

MONTEMHAT  copiou cenas do templo funerário de  HATSCHEPSUT ;
PETAMENOFIS ornamentou seu túmulo com imagens mitológicas das tumbas do Novo Império.






Na opinião de  KURT LANGE,   "todo o valor do homem antigo está nele ser um artesão.
As máquinas de um agricultor eram o fruto de seu próprio esforço e tempo.
Achar-se-ia dificilmente um escultor capaz de por em valor todas as qualidades latentes, todas as virtualidades de uma pedra, como sabia fazê-lo o egípcio.
E os ceramistas modernos ainda não se puseram em acordo sobre a composição da pasta das pequenas faianças egípcias".






Verrumas,
escopros,
pruas,
brocas,
maças,
martelos e
cinzéis,
são alguns dos instrumentos utilizados pelo artesão egípcio, que lembra o obscuro artista das catedrais medievais :
eram anônimos, 
trabalhavam para o rei,
para a religião,
para o povo
e não lhes era permitido assinar suas obras, para que não se tornassem imorredouros.


Entretanto, um certo  MERTISEN, que viveu no reinado de  NEBHAPETRA  MENTUHOTEP, tenta uma projeção em sua própria estela funerária, atualmente no Museu do Louvre :

'Eu era um hábil artista, na minha arte.
Eu a conhecia e sabia como representar as formas dos que saíam e voltavam, de modo que cada membro de achasse no lugar adequado.







Vários artesãos,   num esforço conjunto, reproduziam uma única estátua :
RAHOTEP  : olhos em cristal de rocha.

pedreiros especialistas extraíam os blocos do pedregal ;

trabalhava-o e lapidava-o o escultor ,

entregando a obra ao especialista em talhar hieróglifos ,

passando deste para o metalúrgico  (inserindo os olhos e pormenores decorativos ),

e finalmente para os cuidados do pintor.






Com o mesmo carinho eram tratados os   afrescos :

*    nivelava-se a parede com uma camada de argila e palha triturada, cobrindo-a com uma demão de gesso e clara de ovo ;

*    depois de seca, dividiam-na em compartimentos retangulares, segundo o número de cenas previsto, quadriculando-os em seguida ;

  cada figura do esboço original era traçada na devida proporção, auxiliara pelos quadrículos ;

*    com um pincel de junco ou de crina, molhado na tinta, faziam os contornos ;

  o mestre-de-obras intervinha nos retoques ;

*    davam-se as cores fixadas pela convenção  
(  na arte amarniense procuravam aproximar-se dos tons naturais mas sem imitá-los fielmente, pois visavam substituir a realidade visível por uma convencional ou representação ideal  ).

 





A  química das cores :
 
 



O Templo decretava o   verde para o corpo de  OSÍRIS  (cor simbólica da ressurreição ),  azul para uns,   amarelo para outros, a fim de mostrar que eram divindades celestes ou que suas peles eram de ouro.
O branco : cor da esperança e alegria ;
vermelho :  cor do mal.

Convencionou-se o marrom para o corpo do homem  (talvez representando o queimado do sol)  e o  ocre-amarelo para o das mulheres, com muitas exceções, principalmente com a reforma de AKHENÁTEN.





As  cores eram conservadas em saquinhos ;
no momento do uso eram misturadas com goma especial.

Ossos calcinados davam  a cor preta ;
branco era obtido com gesso amalgamado com albumina ou mel ;
ocre e amarelo, com sulfureto de arsênico ;
vermelhão, com sulfureto de cinábrio ;
azul , do lápis-lazúli ou vidro colorido, com sulfureto de cobre.








O  artista     estava bem integrado na sociedade, possuía seu deus protetor  -  THOT  -  "e o curioso que se decidir examinar um pormenor de seu trabalho, com o espírito bem alento e sem idéias pré-concebidas  ,  conclui  KURT  LANGE ,  terá de se convencer que se trata de um artista notável ".

E se examinarmos com o mesmo espírito os túmulos egípcios, aprendemos uma lição bem mais profunda e verdadeira :

a crença na eternidade da vida terrena  !







 


















Você sabia que o imperador D.PEDRO I,  aconselhado por JOSÉ BONIFÁCIO comprou centenas de peças egípcias autênticas ? 
Esse acervo, trazido da França pelo mercador italiano NICOLAU FIENGO, destinava-se ao ditador argentino D. JUAN MANUEL DE ROSAS, que o encomendára. 
Ao chegar a Buenos Aires,  ROSAS havia sido deposto e o governo sucessor não quis sustentar os compromissos da compra. 
FIENGO o trouxe para o Rio de Janeiro e D.PEDRO o arrematou por  5 contos de réis, pagos em 6,12 e 18 meses.  Pequena parte desse material está exposto nas salas  HUMBOLDT e  CHAMPOLLION, no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista.
Vá conhecê-lo !











 

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